Passagem por leilão muda valor, seguro e revenda — e nem sempre aparece no documento. Entenda os tipos de lote, o que cada um significa e como consultar pela placa antes de negociar.
Passagem por leilão é a informação que mais some entre o histórico do veículo e o anúncio. Não porque seja proibido vender um carro leiloado — é perfeitamente legal — mas porque ela derruba o preço, e quem vende raramente oferece espontaneamente um argumento contra si mesmo.
O problema para o comprador é que ela nem sempre aparece no documento, e descobri-la depois custa em três frentes ao mesmo tempo.
O valor. Um exemplar com histórico de leilão vale menos que a referência de mercado — quanto menos depende do tipo de lote, e a diferença costuma ser grande o bastante para explicar sozinha um anúncio "bom demais".
O seguro. Várias seguradoras recusam a cobertura ou aceitam com restrição e prêmio mais alto. Descobrir isso depois de comprar significa rodar sem seguro ou pagar bem mais por ele.
O financiamento. Instituições costumam ser mais rigorosas — e algumas simplesmente não financiam.
A revenda. O próximo comprador vai fazer a mesma consulta que você não fez. O desconto que você não pediu ao comprar, você vai conceder ao vender.
Esta é a parte que a maioria dos textos sobre o assunto erra, tratando "carro de leilão" como sinônimo de batida grave. Os lotes têm origens bem diferentes:

Sinistro. O veículo foi indenizado por uma seguradora depois de acidente, incêndio, alagamento ou recuperação de roubo. É a origem que mais preocupa — e a que tem gradações que importam.
Frota e locadora. Renovação de frota, sem nada de errado com o veículo além do uso intenso e do número de condutores diferentes.
Recuperação de crédito. O carro foi retomado por inadimplência do financiamento. Não há relação nenhuma com o estado mecânico.
Órgão público. Veículos oficiais fora de uso, ou apreendidos e leiloados por determinação administrativa ou judicial.
Um lote de frota e um lote de sinistro aparecem os dois como "passagem por leilão". Tratá-los igual é tão impreciso quanto ignorar os dois.
Quando a origem é sinistro, a classificação do dano é o que separa um carro recuperável de um carro que não deveria estar circulando:
Um carro de grande monta reaparecendo à venda com documento regular é sinal de irregularidade grave — de remarcação de chassi a documento de outro veículo. É a hipótese em que a resposta certa não é negociar o preço, é sair.
A anotação de sinistro depende de o registro ter sido feito e mantido ao longo das transferências. Na prática ela falha em vários pontos: leilão em outro estado, veículo recuperado e transferido várias vezes, sinistro não comunicado pela seguradora.
A consulta por placa não depende do papel que está na mão do vendedor. Ela procura o registro do lote — se houve leilão, em que condição o veículo foi arrematado e um score de aceitação que resume o quanto aquele histórico compromete o bem. Quando o leiloeiro disponibiliza, vêm também as fotos do lote, que são o documento mais eloquente que existe: dá para ver o estado em que o carro entrou no pátio.
Não é necessariamente motivo para desistir — é motivo para mudar a conversa.
Consulta e vistoria respondem coisas diferentes e não se substituem: uma olha o passado registrado, a outra olha o carro. Quem faz só a segunda descobre que o veículo está bem hoje e não descobre o que ele foi.
Este é um dos passos do roteiro completo de compra de carro usado — e é justamente o que se confere antes de negociar, não depois.